Cinco perguntas para se entender a vitória de Bolsonaro (e de Witzel e Zema)

Vamos aos fatos: as pesquisas indicam os momentos de inflexão de Bolsonaro. Nos cenários de primeiro turno, a) de 6-9% para 15% no primeiro trimestre de 2017, b) de 15% para 20% entre junho e agosto de 2017, c) de 20% para 28% em setembro de 2018, d) de 28% dos votos totais para 46% dos votos válidos na primeira semana de outubro. Nos cenários de segundo turno, c) de 30% para 35-40% em setembro de 2018, d) de 35-40% para 60% na primeira quinzena de outubro, e) queda de 60% para 55% dos votos válidos na última semana do segundo turno. Todos esses momentos coincidem com eventos relevantes: a) com a queda de popularidade do governo Temer, b) com os efeitos da divulgação dos áudios da JBS/Temer, c) com a facada, d) com apoio de líderes evangélicos, da Record e intensificação das Fake News via Whatsapp. D) coincide ascensão meteórica de Witzel (RJ) e Zema (MG), que terminaram por desbancar os líderes de pesquisas, bem como queda de César Maia (RJ) e Dilma (MG) que até então lideravam disputa para Senado. O ensaio de reação de Haddad (e) coincide com ensaio de reação de Paes (RJ), Anastasia (MG) e, em menor medida, França (SP). Os estados do RJ e, em menor medida, MG, são os mais importantes para explicar a diferença entre desempenho de Dilma (2014) e Haddad (2018).

Uma hipótese comum que tem sido usada é que o antipetismo foi decisivo para a derrota de Haddad. Considero essa hipótese frágil por três razões: i. o antipetismo já existia em 2014 e não impediu Dilma de ser eleita; ii. assim que passou a ser conhecido pelos eleitores de menor renda e escolaridade, Haddad passou a liderar cenários de segundo turno no final de setembro; iii. A virada repentina da primeira semana de outubro atingiu Paes (DEM, ex-PMDB) e Anastasia (PSDB) com mais intensidade que Haddad. Paes já foi aliado do PT, mas Anastasia sempre foi oposição ao governo, votou a favor do impeachment e passou a maior parte da campanha antagonizando com candidato do PT. O antipetismo é frágil para explicar a queda de Paes e ajudaria a impulsionar Anastasia, não o contrário. Outra hipótese muito comum é a exploração de imagens do #Elenão junto ao eleitorado conservador (manifestações de feministas radicais, fotos de outras manifestações etc) combinada com apoio de líderes evangélicos a Bolsonaro e fakenews sobre questões antigas como “kit gay”, de quando Haddad foi Ministro da Educação para impulsionar a rejeição a Haddad. Como estava em segundo lugar nas pesquisas, é evidente que uma repercussão negativa do #Elenão prejudicaria principalmente Haddad. Mas essa hipótese não explicaria o simultâneo aumento da rejeição de Paes e Anastasia.

Como o fator decisivo das eleições ocorreu no início de outubro, todas as minhas perguntas dizem respeito apenas aos segmentos de eleitores que mudaram no início de outubro:

  1. O que definiu a mudança foram campanhas negativas direcionadas a candidatos específicos (Haddad, Paes e Anastasia) ou campanhas direcionadas à rejeição de tudo que fosse identificado com sistema?
  2. A mera rejeição a tudo que está aí apenas aumentaria votos brancos e nulos, pelo menos em um primeiro momento. Entretanto, o aumento da rejeição a Haddad/Paes/Anastasia foi simultâneo à transferência de votos para Bolsonaro/Witzel/Zema em poucos dias. Como eleitores que até então rejeitavam Bolsonaro ou desconheciam Witzel e Zema passaram a vê-los como alternativa?
  3. Eleitores mais pobres costumam dar maior importância às pautas morais nas eleições legislativas, sendo guiados pela sobrevivência (emprego e programas sociais) nas eleições executivas. Se as pautas morais foram relevantes, por que eleitorado mudou um comportamento consolidado por décadas em questão de poucos dias?
  4. Há um conjunto identificável de Fake News que tiveram influência decisiva ou foi apenas o bombardeio de notícias negativas junto a alguns segmentos que fomentou a rejeição a Haddad/Paes/Anastasia?
  5. Quão consolidada é a rejeição a Haddad/Paes/Anastasia e o apoio a Bolsonaro/Witzel/Zema?

4 comentários sobre “Cinco perguntas para se entender a vitória de Bolsonaro (e de Witzel e Zema)

  1. Rafael, dizem por aí que o governo contraiu dívida aqui dentro a fim de pagar a dívida com o FMI. Isso é verdade? É possível contrair dívida em moeda local para pagar outra em dólar?

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    1. Vc está se referindo ao argumento da Auditoria Cidadã? Fiz 4 textos sobre os argumentos deles. Sim, é possível se endividar internamente pra quitar endividamento externo se houver fluxo positivo de divisas

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