Em meio ao noticiário político, indicadores de desemprego, inflação e setor externo

Desemprego

Hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou a última Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que apontou taxa de desemprego de 8,2% em fevereiro, aumento de 0,6% em relação ao mês anterior e 2,3% em relação a fevereiro de 2015 (Gráfico 1). A taxa de desemprego observada ficou em linha com a previsão das instituições consultadas pelo Valor Econômico[1]. A partir do próximo mês, a PNAD contínua será a única pesquisa de emprego divulgada mensalmente pelo IBGE[2]. Além de diferenças na metodologia, a PNAD contínua compreende quase todo o território nacional, enquanto a PME restringia-se às principais regiões metropolitanas. A diferença de metodologia é o principal fator a explicar porque a taxa de desemprego da PNAD contínua é sistematicamente superior à da PME.

Um inconveniente é que só há dados para a PNAD contínua a partir de março de 2012, de modo que os dados de desemprego divulgados ao longo de 2016 somente terão base de comparação a partir de 2012. Não se trata da primeira vez que o IBGE modifica a metodologia de cálculo de desemprego, pois no início da década passada também ocorreu uma mudança na metodologia da PME. Em dezembro de 2002, último mês ada antiga PME, a taxa de desemprego era de 6,2% de acordo a metodologia antiga e 10,5% de acordo com a metodologia nova.

Não duvido que em meados de 2016 surjam análises comparando o desemprego medido pela PNAD contínua (a partir de mar/12) com a PME (mar/02 a fev/16) ou mesmo com a antiga PME (jan/80 a dez/02). Tal comparação seria absolutamente indevida, pois, por diferenças de método, a taxa de desemprego medida pela PNAD contínua é maior que a da PME, a qual, por sua vez, também apresentava números superiores aos da antiga PME.

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Inflação

O IBGE também publicou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo entre a segunda quinzena de fevereiro e primeira quinzena de março (IPCA-15), considerado uma prévia do IPCA, indicador utilizado como referência para o regime de metas de inflação. O indicador desacelerou de 1,42% para 0,43%, abaixo da expectativa de 0,55% captada pelo Valor Data[3]. Além disso, o acumulado em 12 meses voltou para um dígito, o que não ocorria desde setembro de 2015.

Setor Externo

O Banco Central do Brasil (BCB) publicou a Nota de Setor Externo. Em decorrência de expressiva depreciação cambial e recessão, o déficit em transações correntes se reduziu novamente: entre março de 2015 e fevereiro de 2016, ele foi de 2,67% do Produto Interno Bruto (PIB), menor valor da série histórica iniciada em 2010 (Gráfico 2). Outra notícia positiva foi a continuidade do processo de redução do endividamento externo das empresas brasileiras: em fevereiro de 2016, a dívida externa era de USD 330,7 bilhões, contra USD 352,7 bilhões em dezembro de 2014 (redução de 6,2%)[4].

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Perspectivas para Selic e juros da dívida pública

A combinação de desemprego elevado com processo desinflacionário mais intenso que o esperado pode contribuir para a queda da taxa Selic em um futuro próximo, caso o processo de queda na inflação continue nos próximos meses. Outro aspecto relevante é que nos últimos dias o BCB tem sinalizado que não irá renovar integralmente o estoque de swaps cambiais, ao mesmo tempo em que oferta swaps cambiais reversos[5]. Além de sinalizar a existência de um piso para a taxa de câmbio – e a continuidade do ajustamento externo, a redução do estoque de swaps cambais combinada com a queda na inflação contribuirá para a redução dos juros da dívida pública, o que poderá ser intensificado com a provável queda da Selic.

[1]http://www.valor.com.br/brasil/4494968/taxa-de-desemprego-vai-82-e-e-maior-para-fevereiro-desde-2009

[2] http://www.ibge.gov.br/home/disseminacao/destaques/2016_03_09_pme.shtm

[3]http://www.valor.com.br/brasil/4495062/ipca-15-desacelera-para-043-e-e-o-mais-baixo-para-marco-desde-2012

[4] http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPEXT

[5]http://www.valor.com.br/financas/4494272/rolagem-de-swap-diminui-e-mercado-ve-piso-para-dolar

Sobre a manifestação de 18/3/2016: outra vez, mais do mesmo!

Na última sexta-feira, 18/3/2016, 95 mil pessoas foram para a Avenida Paulista protestar contra o impeachment, de acordo com o Datafolha. Há pouco mais de um ano, em 13/3/2015, 40.800 pessoas manifestaram apoio à presidenta Dilma na Avenida Paulista. Coincidentemente, os atos contrários e favoráveis ao governo aumentaram praticamente na mesma proporção de 2015 para 2016 (Quadro 1):

Número de manifestantes nos atos de março de 2015 e março de 2016

  Mar/2015 (A) Mar/2016 (B) B/A
Pró governo            40.800            95.000 2,33
Anti governo          210.000          500.000 2,38

Embora tenham crescido na mesma proporção, a superioridade numérica dos atos contrários ao impeachment é inequívoca. Entre os fatores explicativos, cabe citar:

  1. Os atos contrários ao governo foram amplamente divulgados com razoável antecedência, ao passo que os atos favoráveis ao governo vieram a reboque, como mera reação aos atos contrários ao governo;
  2. Os atos favoráveis ao governo ocorreram em sextas-feiras, enquanto os atos contrários foram aos domingos. Trata-se de tentativa dos apoiadores do governo de evitar comparação direta entre os atos e minimizar a inferioridade numérica dos atos pró governo;
  3. Desde 2013, as pesquisas de opinião captam vontade de mudança entre os brasileiros, o que se intensificou com agravamento da crise econômica e política, o que favorece quem representa oposição ao governo;
  4. Há grande rejeição ao governo Dilma;
  5. Os números são de São Paulo, o segundo estado onde Dilma teve menor votação proporcional.

Os perfis de gênero e escolaridade dos atos contrários e favoráveis ao governo são idênticos: os homens foram 57% dos presentes, enquanto a proporção e homens no município de São Paulo é 47%. A perfil de escolaridade também é estatisticamente idêntico: no ato favorável ao governo, 78% possuía ensino superior e 4% possuíam ensino fundamental, contra 77% e 5% no ato de 13/3/2016.

Embora o ato pró-governo esteja mais próximo do perfil de renda da média da população, tanto o ato de 13/3/2016, quanto o ato de 18/3/2016 são mais elitizados que a média de renda das famílias paulistanas: as famílias com renda de até 3 salários mínimos representavam 14% dos presentes na manifestação contrárias ao governo de 21% na última sexta-feira, enquanto no município de São Paulo esse segmento representa quase metade da população (Gráfico 1):

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O fato do ato favorável ao governo ter o mesmo perfil de escolaridade, mas renda média menor que o ato contrário ao governo provavelmente se deve à presença de profissões de menor remuneração entre as ocupações que exigem ensino superior, como magistério da rede pública de educação básica. Isso também ajuda a explicar o maior percentual de servidores públicos no ato da última sexta-feira (15%, contra 5% no ato de 13/3/2016). A idade média de quem esteve na Avenida Paulista em 18/3/2016, 38,9 anos, é significativamente menor que a do ato de 13/3/2016, 45,5 anos. Em grande medida, devido à participação de entidades estudantis no dia 18.

No ato de sexta-feira, apenas 14% consideram o governo Dilma ruim ou péssimo, contra 98% no dia 13/3/2016. Lula teria sido o melhor presidente do Brasil para 88% dos presentes no dia 18, enquanto 60% dos presentes no dia 13 preferem Fernando Henrique Cardoso. Portanto, enquanto o grupo do dia 18 reflete uma clara preferência pelo legado dos governos petistas, o grupo do dia 13 define-se mais pelo antipetismo que pelo apoio a um grupo político específico, aspecto corroborado pela queda na preferência pelo PSDB nos atos favoráveis ao impeachmet, de 37% para 21% dos entrevistados. Essa maior heterogeneidade dos defensores do impeachment evidencia maior eficiência em angariar adeptos, ao mesmo tempo em que indica possíveis dificuldades que um eventual governo Temer teria.

O fato das manifestações realizada na Avenida Paulista terem perfil mais elitizado que a média da população é uma má notícia para o governo Dilma, pois deixa claro que quem a elegeu em 2014 não foi às ruas. Um indicador disso é que no Nordeste, região em que Dilma obteve vitória expressiva em 2014, houve relativo equilíbrio entre os atos favoráveis e contrários ao governo. Entretanto, o fato das manifestações apenas terem replicado 2015 em escala ampliada não significa que a correlação de forças tenha se mantido: segundo o Datafolha, no último mês o apoio ao impeachment aumentou de 60% para 68% dos eleitores, enquanto os eleitores contrários ao impeachment caíram para 27%[1]. Como os perfis dos manifestantes de 2016 não diferem significativamente de 2015, é provável que essa deterioração do apoio ao governo tenha sido causada pelas recentes investidas contra o ex-presidente Lula e pelo imbróglio de sua nomeação como Ministro da Casa Civil. Sem dúvidas, no último mês aumentou a probabilidade de efetivação do impeachment.

Em um aspecto há convergência entre quem protestou nos dias 13 e 18 de março: nos dois atos, 96% são favoráveis à cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que já é réu no âmbito da operação Lava Jato[2]. Apesar disso, o processo de cassação do deputado segue lento[3]. Deixo a interpretação disso para quem chegou até o final do texto.

[1]http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1751950-apoio-a-impeachment-de-dilma-cresce-e-chega-a-68-diz-datafolha.shtml

[2]http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/maioria-do-supremo-aceita-denuncia-contra-eduardo-cunha-na-lava-jato.html

[3]http://oglobo.globo.com/brasil/processo-de-cunha-bate-recorde-de-lentidao-no-conselho-de-etica-18718112

Comparação das pesquisas sobre manifestações

Após as manifestações da Avenida Paulista, há uma disputa de fotos e memes. Os críticos dos protestos enfatizam o elevado perfil socioeconômico e alguns cartazes mais radicais. Já quem defende o ato do último domingo argumenta que não seria possível encher a Avenida Paulista apenas com representantes da elite, o que seria evidenciado por exemplos de pessoas negras e/ou pobres que participaram do evento. Embora eu reconheça que algumas imagens são divertidas e outras sintetizam algumas relações sociais brasileiras, a guerra de imagens carece de representatividade estatística e pode nos tornar auto-referenciais.

Dentre todas as análises realizadas, escolhi comparar as pesquisas do Datafolha de 15/03/2015[1] e 13/03/2016[2] para as manifestações de São Paulo. Utilizo o Datafolha por duas razões: i. Até o momento, é o único instituto que divulgou pesquisas de perfis de manifestantes nos dois protestos; ii. Em que pese as críticas, ao longo dos anos o Datafolha é o instituto que mais tem se aproximado do resultado das eleições – na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, a pesquisa Datafolha apontava vitória da Dilma por 52%, enquanto Dilma foi eleita por 51,64% dos votos. A seguir, os principais aspectos das pesquisas:

  1. O primeiro elemento a se destacar é que a manifestação deste ano teve 500 mil pessoas, contra 210 mil no ano passado, algo que certamente pesará nesta etapa de deliberação acerca do impeachment;
  2. Apesar da proporção de homens ter caído de 63% para 57%, a proporção de homens nas manifestações é significativamente superior aos 47% da população paulistana;
  3. A idade média aumentou de 39,6 para 45,5 anos, o que pode indicar maior conservadorismo dos participantes;
  4. A escolaridade dos manifestantes é estatisticamente a mesma nos protestos de 2015 e 2016. Nada menos que 77% tinha ensino superior, contra 28% dos paulistanos. No outro extremo, apenas 4% possuía apenas ensino fundamental, contra 28% na população (Gráfico 1);    image001
  5. Em 2016, o número absoluto de pretos e pardos (95 mil) praticamente dobrou em relação ao ano anterior, mas o número absoluto de brancos aumentou ainda mais. Com isso, a manifestação de 2016 teve maior proporção de brancos (77%) que a do ano passado (69%), valor significativamente maior que a proporção de brancos do município de São Paulo (48%);
  6. O perfil de renda dos participantes praticamente não se alterou de 2015 para 2016: o único segmento com variação estatisticamente significativa na participação foi o com renda de 20 a 50 salários mínimos, cuja participação caiu de 16% para 11%. É possível que isso decorra da combinação de valorização real do salário mínimo e queda na renda real. Como se pode observar no Gráfico 2, embora quem ganhe até 3 salários mínimos represente 48% da população, eles foram apenas 14% dos manifestantes; no outro extremo, 37% dos participantes da manifestação de 13/3 aufere renda superior a 10 salários mínimos, mais que o quádruplo da proporção da população que obtém essa renda na cidade de São Paulo (Gráfico 2);

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  1. Apenas 3% dos manifestantes afirmou ter votado em Dilma, contra 79% que disseram ter votado em Aécio Neves, praticamente o mesmo percentual (82%) da manifestação de 15/03/2015;

Portanto, embora significativamente maior que as manifestações de 2015, o protesto de 13/03/2016 não é uma amostra representativa do eleitorado brasileiro, o que evidentemente não a torna menos legítima. As únicas alterações relevantes foram o aumento da proporção de brancos e da idade dos manifestantes. O aumento quantitativo é um indício que o topo da pirâmide social tem se tornado ainda mais avesso ao governo Dilma. A grande maioria dos eleitores de Dilma não estavam na Avenida Paulista em 13/03/2016.

Isso não significa, entretanto, que a situação da presidenta Dilma seja confortável. Na última pesquisa Datafolha sobre o assunto, de 24 e 25/02/2016, 60% dos brasileiros se disseram favoráveis ao afastamento da presidenta Dilma e 64% o consideram ruim ou péssimo, percentual estatisticamente igual à pesquisa realizada em abril do ano passado[3]. Embora o Nordeste seja a região onde a avaliação negativa de Dilma seja menor, 51% dos nordestinos avaliam a presidenta como ruim ou péssima. O perfil regional da avaliação da presidenta Dilma está intimamente relacionado à evolução das economias regionais: no centro-sul do Brasil, a recessão já vem ocorrendo desde 2014, enquanto no Norte e Nordeste a recessão começou em 2015[4]. Em outras palavras, o grande risco para a presidenta Dilma não foi o protesto gigantesco em São Paulo, mas a manutenção de má avaliação decorrente do aprofundamento da recessão em regiões com concentração dos eleitores petistas. Se eu pudesse sintetizar em uma frase minha impressão, diria que cresceu a probabilidade de impeachment de Dilma porque aumentou a disposição de quem se opõe a ela, ao passo que quem votou nela em 2014 se encontra desencantado com o governo e não parece disposto a defendê-lo.

Sinais de alerta

Embora o perfil socioeconômico dos manifestantes não tenha variado significativamente entre 2015 e 2016, há dois sinais muito preocupantes. O primeiro é captado na pesquisa Datafolha: em 15/03/2015, 37% dos manifestantes afirmavam preferir o PSDB, contra 21% na manifestação do último domingo. Isso significa dizer que o aumento no número de manifestantes do ano passado para 2016 foi composto majoritariamente por pessoas sem preferência partidária. Certamente reflete os escândalos de corrupção que atingem os políticos tradicionais. Isso ajuda a explicar as vaias a Geraldo Alckmin, Aécio Neves (PSDB) e Marta (PMDB). Sou bastante pessimista quanto a isso. Há quem veja nessa aversão aos políticos tradicionais a possibilidade do surgimento de novas lideranças de perfil mais conciliador e não associadas às denúncias de corrupção, como Marina Silva. Parece-me, entretanto, que seguiremos o caminho da Itália após a Operação Mãos Limpas, no qual o eleitorado tenderá a apoiar candidatos com discursos mais radicais e pessoas já expostas pela mídia. Geraldo Alckmin (PSDB) parece ter captado essa mudança no perfil do eleitorado ao apoiar a candidatura de João Dória Jr. à prefeitura de São Paulo.

A aversão aos políticos tradicionais é acompanhada por um aspecto assustador: em pesquisa realizada nas manifestações de março e abril de 2015 em São Paulo, o cientista Político Jairo Pimentel constatou que pouco mais de um terço era favorável a uma intervenção militar[5], praticamente o mesmo percentual apurado pelo Instituto Paraná em 13/03/2016[6]. A combinação de aversão à política tradicional, recessão e pouco apreço à democracia é muito perigosa e deve ser acompanhada de perto.

[1] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2015/03/17/manifestacao-15-03.pdf

[2] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/03/14/manifestacao_13_03_2016.pdf

[3] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/02/29/avaliacao_dilma_rousseff.pdf e http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2015/04/13/avaliacao_governo_dilma.pdf

[4] http://www.bcb.gov.br/pec/boletimregional/port/2016/01/br201601P.pdf

[5]http://opiniaopublica.ufmg.br/site/files/artigo/4-Dossie-Abril-2014-Jairo-Pimentel1.pdf

[6] http://www.oantagonista.com/posts/pesquisa-na-paulista-13-milicos-nunca-mais